"Camões de carne e osso" por Afonso Reis Cabral
Camões de carne e osso
Por Afonso Reis Cabral
In Jornal de Notícias, 17 de junho, 2026
Custa a acreditar que as grandes mentes tenham corpos como os nossos. Que usem a mesma massa cinzenta, adoeçam, sintam calor e frio, precisem de ir à casa de banho. E algumas mentes parece mesmo inconcebível que tenham sido de carne e que pudessem partir um braço. Fernando Pessoa prescindiria com facilidade de um esqueleto, tanto como o dispensaram Ricardo Reis e os outros. É fácil imaginá-los a respirar à custa de versos.
Mas outras grandes mentes ninguém as imagina sem as delícias da marmelada, da lampreia e da galinha mourisca – já para não falar dos passeios longos pelos verdes campos da cor do limão.
Basta correr à Biblioteca Nacional para encontrar Camões cansado, degredado, apaixonado – e tudo o mais que torna uma mente inteira de corpo. A exposição “No Rasto de Camões”, com curadoria de Vanda Anastácio, nunca cai no biografismo (seria trabalhar com pouco material), nem nos mostra um Camões pequeno e cronológico. Faz muito mais: põe-nos a ver o que ele viu, quase a andar nas terras onde ele andou, até a cheirar o que ele cheirou.
A mesa de especiarias no Núcleo III é um feito de imaginação. Basta cheirar o cardamomo, a canela, o anis e a pimenta para ser ele que cheira por nós. Ou nós que cheiramos por ele, ainda não decidi.
Seria impossível roubá-lo de um corpo, a ele, que escreveu, de acordo com a lenda, “por ter, fermosa Dama, a doença em que vós vejo, vos confesso que desejo de cair convosco em cama”. E ainda mais impossível tirar-lhe as paixões, a ele, que talvez tenha feito sofrer os navegadores apenas para lhes dar a recompensa da Ilha dos Amores.
Além disso, “No Rastro de Camões” mostra a censura da Inquisição – com as rasuras de tinta que queimou para sempre o papel -, a diversidade de náufragos e naufrágios, e até vários cocos-do-mar. Estas sementes, as maiores do Mundo, caem ao mar nas Seicheles e, boiando, talvez um dia tenham chegado aos pés do poeta.
Quinhentos anos depois, através do corpo, pomo-nos na mente de Camões. Em todo o caso, é um efeito curioso, porque prova a tese de Álvaro de Campos sobre os chocolates. De facto, há mais metafísica na confeitaria.
Esta exposição, nada menos que maravilhosa, está patente até quinze de Setembro. Mérito da Biblioteca Nacional e da curadora Vanda Anastácio, além de um grande e belo legado de Diogo Ramada Curto.
*O autor escreve segundo a antiga ortografia
Visitas guiadas à exposição “No Rasto de Luís de Camões” em junho
23 de junho | 16h | com Tiago Miranda
24 de junho | 15h | com Cristina Costa Gomes
25 de junho | 17h30 | com Tiago Miranda
30 de junho | 17h30 | com Cristina Costa Gomes